quinta-feira, 8 de abril de 2010

Redenção.

Cada dia ficava mais difícil não ver o rosto, não ouvir a voz, sentir o gosto, não acariciar. A vontade de procurá-la o consumia, o tomava de tal maneira que ele queria jogar novamente seu orgulho de lado e levar mais tapas. Permaneceu com seu orgulho, permanecer são, mas desta vez, ele quem discou seu numero, ele quem desejou ouvir sua voz. Ainda era de manhã quando ele ligou pela primeira vez, e ninguém atendeu. Foi para o trabalho sem tornar a pensar naquilo. No meio do expediente ele voltou a ligar, e assim como no almoço e durante a tarde, ninguém atendeu. Em vez disso, uma mensagem chegou, e a discussão começou ali. Primeiro carinho, depois as primeiras alfinetadas, e o começo do fim cravava seu ponto de partida. Ele desistiu de tentar explicar o inexplicável, de mudar o imutável, de sorrir com a miséria. Não respondeu mais nenhuma mensagem. Desceu as escadas do escritório, tirou uma carteira de Carlton do bolso da camisa, acendeu e tragou. Quando terminou de fumar voltou ao escritório, pegou suas coisas e rumou para casa. Abriu uma garrafa de vinho sentou-se na varanda e se embriagou.
Quando se deu por vivo, já havia anoitecido, a garrafa de Santa Felicidade estava vazia, jogada no chão e seus olhos, vermelhos. Levantou-se aos tropeços, recolheu os cacos de vidro e alguns do seu coração, tomou um banho e adormeceu novamente em sua cama. Ele havia tomado uma decisão.
No dia seguinte ele ligou para ela, e não demorou muito e ouviu sua voz. Não teve reação, nenhum sentimento soou, nenhuma batida foi descompassada e a respiração manteu-se calma.
- Não me procure mais. Não me deixe saber da sua vida. Não queira saber da minha. Não me procura, e nem me ache.
Desligou o telefone e foi para o trabalho ainda pensando se era a coisa certa a se fazer. Era. É.
As semanas passavam, ele se sentia mais ele, sorria mais, trabalhava mais empolgado, saia mais, com pessoas diferentes, com pessoas iguais, com pessoas conhecidas, desconhecidas. Seu grupo social mudou e ele não sentiu mais falta.
Samuel havia morrido havia um mês e duas semanas. Rafael havia ressuscitado há duas semanas.

terça-feira, 9 de março de 2010

Acidente

Ele teve sorte de não estar sozinho, ele teve sorte de estar de cinto de segurança, e ele teve sorte de ter tanta sorte. Fazia dois dias que Samuel havia se encontrado com a garota da fotografia, e o encontro, mesmo que ele não admita à ninguém e mesmo que ele não deixe demonstrar, o deixou mais feliz e não mais machucado. Demorou a dormir naquele dia, os acontecimentos em sua vida o deixaram acordado no dia em que ele mais quis repousar. Não reclamava, alguns cumprimentos e congratulações sempre eram bem vindas. Começava a anoitecer quando ele saiu de casa, e a chuva se aproximava à mesma velocidade em que ele ia para dentro do carro. Parou no posto e encheu o tanque, foi buscar as pessoas que iam com ele, pessoas que ele amava e se sentia bem, encarou o congestionamento habitual do fim de tarde e logo se pôs a cento e vinte por hora em uma rodovia quase vazia.
Duas horas depois, estacionava nos fundos do hotel e começava a aproveitar cada segundo do seu fim de semana naquela cidade interiorana. Um tour pelo centro, uma visita a antigos conhecidos, festa na casa de uma pessoa querida e o final do dia ia chegando, a estrada voltaria a correr por seus olhos. Deitou no sofá da sala e ali permanecer adormecido por algo em torno de trinta minutos, levantou-se, arrumou os cabelos e jogou um punhado de água no rosto e estava pronto para cair no mundo novamente. Um beijo e um abraço de despedida.
A volta era tranqüila, poucos carros à frente, poucos caminhões. Tudo corria bem. - Parada para comida - Disse ele rindo com seu melhor sorriso, o qual foi seguido por mais duas faces sorridentes. O ponteiro rodou cento e oitenta graus e a noite chegava. Quente, abafada, seca. O céu ficava vermelho, o tempo estava mudando. Estava perto de casa, quarenta quilômetros o separava de sua cama e seu chuveiro.
- Ai galera, todo mundo de cinto ai atrás? Não quero tomar nenhuma multa.
- Bom, se não quer tomar multa, é melhor abaixar esse velocímetro também. - Ele sorriu olhando-a pelo retrovisor, ela passava o cinto de segurança pelo corpo ao mesmo tempo em que o pé descansava fora do pedal do acelerador.
Mais vinte quilômetros passaram quando tudo aconteceu. O carro mantinha uma velocidade de noventa e cinco quilômetros por hora quando um animal silvestre atravessou seu caminho. Os olhos de Samuel crisparam, seus lábios cerraram e a sobrancelha enrugou ao mesmo tempo em que ele virava o volante para a esquerda, direita e esquerda novamente, mas antes de olhar as faixas amarelas da estrada, ele viu as estrelas, viu o chão, as copas das arvores e não viu mais nada. Fechou os olhos com medo e só os abriu novamente quando o silencio tomou conta do espaço. Olhou para o lado e um deles estava paralisado, em choque. A mulher no banco de trás sangrava e gritava desesperada. Ele não poderia fraquejar ali. Não agora. Saiu com dificuldade do carro destruído e fora em busca de ajuda. Quis ligar para as mesmas três pessoas de antes, mas não poderia falar com nenhuma, novamente.
Quando amanheceu, as dores tomavam conta de seu corpo. Eu o olhava com um sorriso afoito no rosto.
- O médico já lhe receitou o remédio, e liberou a todos. Agradeça por estar vivo. Você renasceu ontem. - Ele me olhou com dificuldade e foi se arrumar.

quinta-feira, 25 de fevereiro de 2010

Telefonemas

Acordou cedo e com os cabelos despenteados, como se ele ligasse. Havia algumas semanas que ele havia se mudado para aquela casa e o cheiro desconhecido dos cômodos, somado aos sorrisos acolhedores da vizinhança o faziam esquecer tudo aquilo que estava passando. Desde o dia em que ele fora à minha casa o sorriso tinha voltado a seu rosto, mas os pesadelos ainda o perseguiam.
Sonolento, foi ao banheiro e despiu-se antes de deixar a água gelada arrepiar os pêlos de seu corpo todo. Quinze minutos depois se acomodava à mesa e preparava o café da manhã apressadamente, afinal o mundo não pararia para vê-lo se recuperar. Escovou os dentes e entrou no carro sem parar para pensar. Girou a chave, o volante, pôs marcha e cruzou a cidade.
Não tive noticias de Samuel por cerca de três dias, até que ele me surpreendeu em uma noite chuvosa. O recebi com um abraço e fomos a sala de estar colocar a conversa em dia.
- Ela tem me ligado todos os dias, pai. - Disse ele me encarando com os olhos crispados. - Há momentos em que eu não quero atender, mas meu masoquismo besta me faz ouvi-la e isso ainda me fere. - Me feria também, eu não demonstrava e ele tampouco percebia, mas vê-lo daquele jeito era tortura para mim.
- E quando ela liga o que ela deseja? - Ele sorriu balançando a cabeça.
- Pergunta como estou, tenta contar alguma novidade, então eu invento alguma coisa e desligo. Acho que estou conseguindo esquecê-la e por incrível que pareça, ela tem facilitado as coisas. - Confesso que não entendi no primeiro momento, afinal se ela o procurava e ele a atendia, como isso o fazia bem? - Não me sinto mais à vontade ao falar com ela.
- E eu devo pensar que isso é algo bom, certo?
- Exato, embora sonhar com ela todas as noites seja algo que ainda me preocupa.
- E os sonhos são ruins?
- Os piores.

segunda-feira, 15 de fevereiro de 2010

Fotografia

Ele entrou na casa a passos lentos, o suor ainda lhe descia à face e sua respiração era descompassada. Olhou-me tentando recuperar o fôlego, puxou uma cadeira e após sentar-se apoiou o cotovelo na perna, passando as mãos sujas pelos cabelos oleosos. Assim ficou durante uns trinta segundos, soltou um suspiro e deu um murro na mesa. Crispei os olhos esperando a próxima atitude do rapaz. Ele me olhou como se pedisse socorro, eu apenas acenei com a cabeça para que ele falasse. Nada saiu de sua boca, ele permaneceu me encarando com aquele olhar vazio e triste. Tirou uma foto de dentro do bolso da camisa e soltou um sorriso frouxo, piscou os olhos firmemente e quando os abriu, duas gotas caíram no chão empoeirado. Saí de onde estava e arrastei uma cadeira até ele, sentei-me e olhei a imagem. O fruto de suas lagrimas era uma jovem de traços finos, sorriso cativante e cabelos negros como os olhos. Sorriso torto. A reconheci imediatamente. Minhas mãos o aconchegaram e suas lagrimas, outrora reprimidas, vieram à tona e ficou notório que o se passava. O rapaz soluçava a medida que eu tentava acalmá-lo. Silencio. Levantou a cabeça e tentou me sorrir. Falhou. Pôs-se de pé e caminhou até a janela, secou os olhos na manga da camisa. Coçou a nuca. O cabelo encaracolado já passava do ombro e ele não ligava. Outro suspiro.
- Sabes, não ligo se demorar muito tempo. Anos podem passar, eu ainda estarei lá. - Ele falou mais para si do que para mim e eu pude perceber. Ainda restava a magoa a raiva e uma boa pitada de insanidade, mas eu sabia que ele não faria nada de errado. Eu me revoltava por saber o quão parecido comigo, ele era. Seus traços não deixavam duvidas, mas me deixavam sem ar às vezes.
- Sempre terá meu apoio, Samuel. Mesmo que falhes, terás meu apoio e minha confiança.
- Obrigado, pai. Ele sorriu e saiu pela porta sem dizer mais nada, mas eu sabia, eu tinha certeza de que se ele precisasse, ele viria me procurar.

terça-feira, 2 de fevereiro de 2010

Pai

Pai!
Pode ser que daqui a algum tempo
Haja tempo prá gente ser mais
Muito mais que dois grandes amigos
Pai e filho talvez...
Pai!
Pode ser que daí você sinta
Qualquer coisa entre
Esses vinte ou trinta
Longos anos em busca de paz...
Pai!
Pode crer, eu tô bem
Eu vou indo
Tô tentando, vivendo e pedindo
Com loucura prá você renascer...
Pai!
Eu não faço questão de ser tudo
Só não quero e não vou ficar mudo
Prá falar de amor
Prá você...
Pai!
Senta aqui que o jantar tá na mesa
Fala um pouco tua voz tá tão presa
Nos ensine esse jogo da vida
Onde a vida só paga prá ver...
Pai!
Me perdoa essa insegurança
Que eu não sou mais
Aquela criança
Que um dia morrendo de medo
Nos teus braços você fez segredo
Nos teus passos você foi mais eu...
Pai!
Eu cresci e não houve outro jeito
Quero só recostar no teu peito
Prá pedir prá você ir lá em casa
E brincar de vovô com meu filho
No tapete da sala de estar
Pai!
Você foi meu herói meu bandido
Hoje é mais
Muito mais que um amigo
Nem você nem ninguém tá sozinho
Você faz parte desse caminho
Que hoje eu sigo em paz.


Eu te amo, pai e ainda choro ouvindo essa musica.

segunda-feira, 1 de fevereiro de 2010

Perdão por eu ser Rafael Pessoa Archanjo e não o Rafa de vocês.

Eu to cansado de toda essa pressão, de toda essa cobrança, de toda essa reclamação. Eu tenho tentado ser bom com todos desde que nasci, respeitar os mais velhos, ser afável com os mais novos, ser passivo, ser bom aluno, bom filho, ser bom... Em tudo. Eu tenho tentado ser o filho atencioso, o filho de sucesso, o filho que dá carinho, o filho que aceita todos os problemas e se mantém firme, pra poder ajudar quando necessário. De uns tempos pra cá, eu tenho começado a tentar ser mais coisas do que eu acho que podia agüentar. Alem de ser o filho perfeito, eu tenho tentado ser o namorado perfeito. Nunca traí, nunca ofendi, nunca falei mal, nunca fiz algo que “comprometesse a relação”. Mas sabe, eu, como o resto da humanidade, como vocês, não sou perfeito. Eu tenho meus defeitos, minhas fraquezas, minhas mediocridades, meus preconceitos. Tenho também minhas ideologias, minhas crenças, meus desejos que as vezes são insaciáveis, mas eu sou assim. E de uns tempos pra cá, vocês três sem perceber tem me tornado uma granada, uma bomba relógio, que a qualquer momento ou a qualquer erro, pode detonar. Mas o problema dessa bomba, é que ela não explode, mas implode. E quem mais sofre com isso tudo sou eu. Sou eu quem sou detonado, sou eu quem é dilacerado, sou eu quem estilhaça e parece que vocês não percebem, ou talvez não queiram perceber. Vocês não aceitam minhas amizades mais puras, vocês não me deixam ser quem eu quero ser e isso tem me matado. Essa granada já esta sem o anel e pronta para explodir, e no final, sou eu quem vira cinzas e acreditem ou não, eu não sou nenhuma fênix.

quarta-feira, 20 de janeiro de 2010

O livro que nunca saiu.

- Que tá acontecendo?
- Nada
- Por que voce faz isso?
- Por que sou muito besta
- Me ama?
- Muito, eu te amo muito
- Entao por que insiste em tudo isso?
- Para, por favor.
- Tem medo?
- Talvez
- Hmm, o medo é bom. Nos faz fortes
- Frase feita vindo de voce? Quem diria
- Até os maiores poetas caem na rotina e usam alguns cliches
- Hmm
- Você é um cliche.
- Obrigado?
- Não. Isso machuca, devia parar.
- Me deixa
- Deixo até demais, talvez seja meu erro.
- Seu erro é fazer eu me sentir assim.
- Voce ja olhou o teu erro?
- Talvez eu tenha receio em descobri-lo e me martirizar por fazer desta maneira.
- Enfrente teus desafios, se fraquejar, meu peito vai estar esperando para voce encostar a cabeça.
- Você é de outro planeta?
- Sim, sou do seu mundo.

R. P.