Ele teve sorte de não estar sozinho, ele teve sorte de estar de cinto de segurança, e ele teve sorte de ter tanta sorte. Fazia dois dias que Samuel havia se encontrado com a garota da fotografia, e o encontro, mesmo que ele não admita à ninguém e mesmo que ele não deixe demonstrar, o deixou mais feliz e não mais machucado. Demorou a dormir naquele dia, os acontecimentos em sua vida o deixaram acordado no dia em que ele mais quis repousar. Não reclamava, alguns cumprimentos e congratulações sempre eram bem vindas. Começava a anoitecer quando ele saiu de casa, e a chuva se aproximava à mesma velocidade em que ele ia para dentro do carro. Parou no posto e encheu o tanque, foi buscar as pessoas que iam com ele, pessoas que ele amava e se sentia bem, encarou o congestionamento habitual do fim de tarde e logo se pôs a cento e vinte por hora em uma rodovia quase vazia.
Duas horas depois, estacionava nos fundos do hotel e começava a aproveitar cada segundo do seu fim de semana naquela cidade interiorana. Um tour pelo centro, uma visita a antigos conhecidos, festa na casa de uma pessoa querida e o final do dia ia chegando, a estrada voltaria a correr por seus olhos. Deitou no sofá da sala e ali permanecer adormecido por algo em torno de trinta minutos, levantou-se, arrumou os cabelos e jogou um punhado de água no rosto e estava pronto para cair no mundo novamente. Um beijo e um abraço de despedida.
A volta era tranqüila, poucos carros à frente, poucos caminhões. Tudo corria bem. - Parada para comida - Disse ele rindo com seu melhor sorriso, o qual foi seguido por mais duas faces sorridentes. O ponteiro rodou cento e oitenta graus e a noite chegava. Quente, abafada, seca. O céu ficava vermelho, o tempo estava mudando. Estava perto de casa, quarenta quilômetros o separava de sua cama e seu chuveiro.
- Ai galera, todo mundo de cinto ai atrás? Não quero tomar nenhuma multa.
- Bom, se não quer tomar multa, é melhor abaixar esse velocímetro também. - Ele sorriu olhando-a pelo retrovisor, ela passava o cinto de segurança pelo corpo ao mesmo tempo em que o pé descansava fora do pedal do acelerador.
Mais vinte quilômetros passaram quando tudo aconteceu. O carro mantinha uma velocidade de noventa e cinco quilômetros por hora quando um animal silvestre atravessou seu caminho. Os olhos de Samuel crisparam, seus lábios cerraram e a sobrancelha enrugou ao mesmo tempo em que ele virava o volante para a esquerda, direita e esquerda novamente, mas antes de olhar as faixas amarelas da estrada, ele viu as estrelas, viu o chão, as copas das arvores e não viu mais nada. Fechou os olhos com medo e só os abriu novamente quando o silencio tomou conta do espaço. Olhou para o lado e um deles estava paralisado, em choque. A mulher no banco de trás sangrava e gritava desesperada. Ele não poderia fraquejar ali. Não agora. Saiu com dificuldade do carro destruído e fora em busca de ajuda. Quis ligar para as mesmas três pessoas de antes, mas não poderia falar com nenhuma, novamente.
Quando amanheceu, as dores tomavam conta de seu corpo. Eu o olhava com um sorriso afoito no rosto.
- O médico já lhe receitou o remédio, e liberou a todos. Agradeça por estar vivo. Você renasceu ontem. - Ele me olhou com dificuldade e foi se arrumar.