As pedras de gelo ainda tintilavam no copo de uísque, o cigarro terminava de queimar no cinzeiro sobre a mesinha de canto. Na poltrona ele ainda estava sentado acariciando suavemente o cavanhaque e contemplando a antiga mobília à sua frente. As portas do pub estavam fechadas há algumas horas, quase o mesmo tempo em que Luís fixava o olhar no nada. De súbito ele suspirou, piscou os olhos mais uma vez, tomou o que sobrava no copo e sem olhar para trás subiu as escadas. Na cabeceira da cama uma foto de sua infância. O quarto não era grande e nem um pouco arrumado, assim como o pub do andar de baixo. O calor dentro do lugar o fazia suar enquanto assobiava uma música do Bee Gees e arrumava uma mochila, colocando as roupas de qualquer jeito. Ao fechar o zíper pegou as chaves do armário e tirou de lá seu violão que há muito não tocava. Colocou do lado da mochila e se dirigiu ao banheiro. O banho de agua fria não demorou mais que dez minutos e ele já jogava o sobretudo que havia herdado do avô no corpo. Antes de sair do quarto, abriu a gaveta do criado mudo e retirou mais duas carteiras de cigarro. As guardou no bolso interno do casaco e desceu.
No andar de baixo se dirigiu sem olhar para trás até a porta, apagou as luzes e trancou o local. Chamou um taxi e cruzou o centro de Londres numa quinta-feira de tempo fechado. Quando chegou no aeroporto a chuva começava a cair. O pub não voltaria a ser aberto tao cedo, e ele demoraria dois meses para voltar à cidade.
A Italia, seu país de origem, sempre fora uma especie santuário para Luís. Era onde se sentia em casa, onde estava rodeado dos amigos de infância e onde podia ficar próximo a sua mãe, Isabel. A chegada em Nápoles fora cheia de olhares furtivos dos amigos e parentes ainda no aeroporto. No tempo em que passou ali, aproveitou cada instante que pode sem nem pensar no que havia deixado na fria capital inglesa. Na primeira noite da sua ultima semana ali foi que as coisas começaram a mudar.
Luís e Matteo, um amigo dos tempos de adolescencia, estavam em uma cafeteria no final da tarde de terça feira quando uma mulher bem branca, com sardas sedutoras perfeitamente combinando com os cabelos vermelhos, labios finos e olhos tão azuis quanto o céu em um dia de primavera aparecera com um sorriso encantador e parou na frente da mesa dos dois.
- Luigi Carmioni...
- Giuliana... que surpresa belíssima...
- Cansou do tempo e das mulheres frias da Inglaterra, é?
- Ah ragazza, não perde uma chance se quer.
- Diferente de você non é vero?
- Veríssimo.
Ela estava tão radiante quanto da ultima vez que eles haviam se encontrado. Giuliana se juntou aos rapazes e as historias dos tempos em que Luís viveu ali se misturavam às novidades que Matteo e ela contavam. Quando os sinos avisaram que era seis da tarde a italiana e o ex cidadão de Nápoles ficaram sozinhos e as antigas conversas voltaram em um estalar de dedos.
- Eu senti a sua falta, Luigi.
- Nápoles sempre foi uma boa cidade para se morar.
- Você ouviu o que eu disse? - disse ela com um misto de brincadeira e irritação no sorriso.
- Ouvi, e não vou dizer que não gostei de ouvir. Mesmo não podendo gostar.
- Você continua o mesmo, achando que a culpa de todas as catástrofes do mundo são por tua causa...
- Giuliana, por favor, eu só tenho mais alguns dias aqui, nossa conversa está muito boa, não vamos entrar neste assunto novamente.
- Vá bene, então me leva até em casa que já escureceu e não estou de férias como você.
CONTINUA
ja tem um tempo hein..
ResponderExcluirtexto ótimo, como sempre
:]
Rafa, vc me inspirou. Vou lá escrever um post fútil do caraminholas.
ResponderExcluir"nossa conversa está muito boa, não vamos entrar neste assunto novamente" Muito bom manoow!
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